| ACABAR A FOME ATRAVÉS DE DECRETO? |
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| Escrito por Site Pão Quente | ||||||
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Pão Quente Diário - 11o.Domingo do Tempo Comum - Ano B - 2009 DOMINGO LITÚRGICO Liturgia da Palavra 11o.DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "B" 1Samuel 3,1-10 (11-20) - Davi alimenta comandados no sábado Salmo 139,1-6 (13-18) - Teus olhos me viram, antes de tudo... 2Corintios 4,5-12 - Por que não pregamos a nós mesmos? Marcos 2Marcos 2
ACABAR A FOME ATRAVÉS DE DECRETO?
Há urgências, a sociedade não é receptiva, porém. Pessoas famintas, pessoas discriminadas por causa da cor da pele, portadoras de deficiências, sem autonomia física, ficam ainda mais fragilizados. Quem cuidará delas? A Lei as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum indicaria para a deficiência física. Jesus manda: "entra na roda, fique no meio"! E o esquadrão vigiava, perguntando: "será que ele ousará contrariar o senso comum"? Na sinagoga, lugar dos religiosos, o fato chama a atenção. E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo, legalista ou fatalista, pergunta: "O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou dar-lhe fim"? Não há decisão, fica-se em cima do muro, porque o medo de "agir ilegalmente", ou contra doutrinas tradicionais, é mais forte. A religião não cuida dessas coisas? Mas Jesus não espera mais, cura o homem deficiente, e alimenta os famintos, "porque hoje é sábado" (Vinícius de Morais)! Aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte. A liberdade é um salto da morte para a vida. A neutralidade e a equidistância, porém, escondem o julgamento de morte. Estabelecer condições de relacionamento para ações que instrumentalizem teológica e eticamente estas questões como próximas da vida de fé, é urgente.
Trataremos, também, do legalismo racista, enfrentado por Jesus Cristo enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo: "Saíram pensando em matar Jesus...", quando constataram a desobediência profética do Homem de Nazaré. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista. Já contei antes, repito: Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa, na Índia sob o colonialismo britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu a observação numa placa, na porta do templo: "É proibida a entrada de cães e negros". Nunca mais entrou numa igreja cristã, embora impressionado pelo Evangelho. Não há notícias sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à causa de Gandhi. O legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo, entre cristãos. A fome e o racismo não são estudadas na Escola Dominical. A afirmação do pecado dos outros, sim.
O Brasil quer torrar milhões e milhões para sediar a Copa do Mundo em 2014, e aqui há milhões de pessoas morrendo de fome. O governo desistiu do Fome Zero, pouco depois da vitória nas urnas. Será a fome crise humanitária, crise social e crise econômica, resultante da hipocrisia política, de campanhas eleitorais governamentais, insensibilidade das elites, da religião, do conformismo da sociedade? Se não é, então, o que é? O homem tolhido, pela doença socializada - a fome é a pior - ou pelo racismo, necessita de amparo. Precisa ser útil, trabalhar, produzir o seu sustento e o dos dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, curar a desnutrição e evitar o holocausto infantil pela doença, transformações, são importantes para a manutenção da vida de todos.
A desnutrição já mata mais que a Aids, acidentes aéreos e terrestres, as guerras e o terrorismo juntos. No mundo. Seriam mais de mil transatlânticos afundando por dia, cheios de crianças que vão morrer, e ninguém chora, ninguém protesta, ninguém lamenta, talvez porque a Aids, a guerra e o terrorismo não façam distinção de classe, e a fome faz. Desnutrição em massa, epidemias e aumento na mortalidade, são "privilégios"(?) dos socialmente fracos, despoderados, excluídos da participação dos bens sociais.
Programas como o Bolsa Família são esmolas, enquanto as famílias necessitam de trabalho, habitação, seguridade sanitária, em primeiro lugar. A fome não obedece ao Sábado, diz o Evangelho. Nem à cor da pele. Mais de um bilhão de homens, mulheres e crianças, neste planeta; mais de vinte milhões, no Brasil, sofrem por causa da fome. "A esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão" (Luiz Gonzaga). E Jesus disse, a respeito do descanso que deram a Deus, no Sábado: "Meu Pai ainda trabalha" para saciar as fomes do mundo.
"No juízo final, você espera ser desculpado? Deus poderá lhe obrigar a derramar lágrimas de vergonha, nesse dia, fazendo-o recitar de cor os poemas que você poderia ter escrito, e não o fez; as palavras de indignação que evitou proferir, tivesse sido sua uma vida de amor à justiça". W.H.Auden
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.
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