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Humilhar um país não é a solução, diz Nobel da Paz PDF Imprimir E-mail
Escrito por ALC   

Essas e outras afirmações foram feitas em entrevista à repórter Joana Duarte, do Jornal do Brasil.

Para esse ex-diplomata egípcio, a decisão do governo iraniano de firmar a declaração representa um ponto de partida para a ampliação das negociações sobre o programa nuclear iraniano. Ele se diz surpreso com a reação de alguns países ao afirmarem que continuariam com o projeto de sanções ao Irã.

"Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana. Sanções levam a um beco sem saída, e novos confrontos virão", lamenta.

ElBaradei, de 67 anos, disse que não se surpreendeu que o Irã tenha aceitado assinar a Declaração de Teerã, coordenada por Brasil e a Turquia. Disse que esteve envolvido nessas negociações durante anos, quando trabalhava como diretor na AIEA, cargo que ocupou até novembro do ano passado.

"Sempre considerei que o diálogo é a única verdadeira solução para o programa nuclear iraniano, e fico feliz que o Irã tenha firmado o acordo através dos bons ofícios da Turquia e do Brasil. Mesmo depois de ter deixado a agência atômica, mantive contato com Celso Amorim e o ministro das Relações Exteriores da Turquia, encorajando-os a prosseguir nos seus esforços", afirma.

Por outro lado, não nega que a surpresa foi quanto à reação de alguns países de afirmar que continuariam com o projeto de sanções ao Irã. "Se Teerã retirar mais da metade do seu material nuclear do país e enviá-lo à Turquia, isso será claramente um esforço de construção de confiança e revelará as intenções do Irã de cooperar. O combustível que permanecerá no país estará seguro, sob salvaguardas da AIEA, e não há absolutamente nenhuma ameaça iminente de que o Irã irá desenvolver uma bomba a partir deste material", assegura.

Ele defende o acordo como "uma medida de confiança inicial, um passo à frente dado pelo Irã, que decidiu finalmente estender a sua mão e dizer que está pronto para negociar".

Lembrou ainda que em setembro o presidente Obama afirmou que estava pronto para negociar com o Irã sem condições prévias. "Agora", disse enfático, que o "Irã respondeu, e eu esperava que a oferta fosse vista como um ponto de partida para as negociações. É claro que há uma série de outras questões não resolvidas, como, por exemplo, a razão de o Irã continuar a dizer que vai enriquecer urânio a 20% mesmo depois de receber o combustível necessário para o seu reator de pesquisas. Mas todos nós sabemos que essas questões só serão resolvidas através do diálogo", afirma.

Ele critica a proposta dos Estados Unidos de prosseguir com as sanções, pois depois deste acordo elas são totalmente contraproducente. "É como não aceitar o sim como resposta. Em qualquer negociação, nunca conseguimos tudo o que queremos no início. Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana".

O ex-diretor da AIEA espera que os países que ainda insistem em adotar sanções repensem a sua posição. Para ele, existem países vizinhos que estão preocupados com o programa nuclear iraniano. Há desconfianças e sua preocupação é que, se sanções forem adotadas, haja uma polarização entre os hemisférios Norte e Sul.

"Se de um lado há países como Brasil, Turquia, África do Sul e outros do Hemisfério Sul apoiando a negociação, e, de outro, países ocidentais com um ponto de vista completamente contrário, exigindo sanções, isso seria muito perigoso, porque você vai continuar a ter uma linha divisória entre o Norte e o Sul sobre uma questão que só pode ser resolvida através de negociações", avalia.

Sobre a possibilidade de um ataque israelense ao Irã, deseja que não seja verdade. "Seria uma loucura. Um ataque poderia transformar o Oriente Médio em uma bola de fogo, não resolveria a questão iraniana, e seria um incentivo ao Irã para o desenvolvimento de armas nucleares, mesmo que o país não tenha a ambição de desenvolver essas armas agora. Um ataque provavelmente atrasaria o programa nuclear iraniano por um ou dois anos, mas o Irã certamente voltaria com uma missão clara de desenvolver a pior arma possível. Quando um país é bombardeado, quando perde a sua dignidade, ele volta com a arma mais poderosa que puder arrumar", reflete.

ElBaradei diz que se deve aprender com a história de que a humilhação de um país não é uma solução, pelo contrário, acaba fortalecendo os políticos linha-dura. Ele estremece só de pensar na implicação de um ataque ao Irã para o resto do Oriente Médio.

"Vimos o Iraque ser atacado sob a pretensão de mudança de regime. Depois de sete anos, o Iraque é hoje um foco de instabilidade, de atentados suicidas", aponta.

Numa pesquisa sobre as cidades mais habitáveis do mundo, em mais de 200 cidades, Bagdá ficou em último lugar por causa de toda a instabilidade e da insegurança que existe lá. Qualquer opção militar conduziria a um desastre, assevera.

Assegura ainda que não havia ameaça iminente de o Irã desenvolver armas nucleares, até deixar a Agência, há seis meses. Na época, não havia qualquer indicação de que o Irã estivesse desenvolvendo armamento nuclear.

E dispara definitivo: "Assim, a ideia de que o Irã é uma ameaça nuclear no presente ou que conseguirá armas nucleares no próximo mês ou em dois meses é totalmente exagerada, e acho que esta avaliação é também compartilhada por todos os serviços de inteligência americanos e de outros países ocidentais".

ElBaradei defende a possibilidade de países emergente atuarem como negociadores. "Acho que a comunidade internacional tem muitos países responsáveis que devem tentar mediar conflitos em regiões diferentes do mundo. Precisamos levar em conta não apenas a abordagem das potências ocidentais, mas também de países do Hemisfério Sul como o Brasil e a África do Sul. Todos estes países que estão emergindo como potências econômicas devem também exercer o seu soft power e sua influência para assegurar que tenhamos um mundo equilibrado", avalia.

 

Essas e outras afirmações foram feitas em entrevista à repórter Joana Duarte, do Jornal do Brasil.

Para esse ex-diplomata egípcio, a decisão do governo iraniano de firmar a declaração representa um ponto de partida para a ampliação das negociações sobre o programa nuclear iraniano. Ele se diz surpreso com a reação de alguns países ao afirmarem que continuariam com o projeto de sanções ao Irã.

"Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana. Sanções levam a um beco sem saída, e novos confrontos virão", lamenta.

ElBaradei, de 67 anos, disse que não se surpreendeu que o Irã tenha aceitado assinar a Declaração de Teerã, coordenada por Brasil e a Turquia. Disse que esteve envolvido nessas negociações durante anos, quando trabalhava como diretor na AIEA, cargo que ocupou até novembro do ano passado.

"Sempre considerei que o diálogo é a única verdadeira solução para o programa nuclear iraniano, e fico feliz que o Irã tenha firmado o acordo através dos bons ofícios da Turquia e do Brasil. Mesmo depois de ter deixado a agência atômica, mantive contato com Celso Amorim e o ministro das Relações Exteriores da Turquia, encorajando-os a prosseguir nos seus esforços", afirma.

Por outro lado, não nega que a surpresa foi quanto à reação de alguns países de afirmar que continuariam com o projeto de sanções ao Irã. "Se Teerã retirar mais da metade do seu material nuclear do país e enviá-lo à Turquia, isso será claramente um esforço de construção de confiança e revelará as intenções do Irã de cooperar. O combustível que permanecerá no país estará seguro, sob salvaguardas da AIEA, e não há absolutamente nenhuma ameaça iminente de que o Irã irá desenvolver uma bomba a partir deste material", assegura.

Ele defende o acordo como "uma medida de confiança inicial, um passo à frente dado pelo Irã, que decidiu finalmente estender a sua mão e dizer que está pronto para negociar".

Lembrou ainda que em setembro o presidente Obama afirmou que estava pronto para negociar com o Irã sem condições prévias. "Agora", disse enfático, que o "Irã respondeu, e eu esperava que a oferta fosse vista como um ponto de partida para as negociações. É claro que há uma série de outras questões não resolvidas, como, por exemplo, a razão de o Irã continuar a dizer que vai enriquecer urânio a 20% mesmo depois de receber o combustível necessário para o seu reator de pesquisas. Mas todos nós sabemos que essas questões só serão resolvidas através do diálogo", afirma.

Ele critica a proposta dos Estados Unidos de prosseguir com as sanções, pois depois deste acordo elas são totalmente contraproducente. "É como não aceitar o sim como resposta. Em qualquer negociação, nunca conseguimos tudo o que queremos no início. Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana".

O ex-diretor da AIEA espera que os países que ainda insistem em adotar sanções repensem a sua posição. Para ele, existem países vizinhos que estão preocupados com o programa nuclear iraniano. Há desconfianças e sua preocupação é que, se sanções forem adotadas, haja uma polarização entre os hemisférios Norte e Sul.

"Se de um lado há países como Brasil, Turquia, África do Sul e outros do Hemisfério Sul apoiando a negociação, e, de outro, países ocidentais com um ponto de vista completamente contrário, exigindo sanções, isso seria muito perigoso, porque você vai continuar a ter uma linha divisória entre o Norte e o Sul sobre uma questão que só pode ser resolvida através de negociações", avalia.

Sobre a possibilidade de um ataque israelense ao Irã, deseja que não seja verdade. "Seria uma loucura. Um ataque poderia transformar o Oriente Médio em uma bola de fogo, não resolveria a questão iraniana, e seria um incentivo ao Irã para o desenvolvimento de armas nucleares, mesmo que o país não tenha a ambição de desenvolver essas armas agora. Um ataque provavelmente atrasaria o programa nuclear iraniano por um ou dois anos, mas o Irã certamente voltaria com uma missão clara de desenvolver a pior arma possível. Quando um país é bombardeado, quando perde a sua dignidade, ele volta com a arma mais poderosa que puder arrumar", reflete.

ElBaradei diz que se deve aprender com a história de que a humilhação de um país não é uma solução, pelo contrário, acaba fortalecendo os políticos linha-dura. Ele estremece só de pensar na implicação de um ataque ao Irã para o resto do Oriente Médio.

"Vimos o Iraque ser atacado sob a pretensão de mudança de regime. Depois de sete anos, o Iraque é hoje um foco de instabilidade, de atentados suicidas", aponta.

Numa pesquisa sobre as cidades mais habitáveis do mundo, em mais de 200 cidades, Bagdá ficou em último lugar por causa de toda a instabilidade e da insegurança que existe lá. Qualquer opção militar conduziria a um desastre, assevera.

Assegura ainda que não havia ameaça iminente de o Irã desenvolver armas nucleares, até deixar a Agência, há seis meses. Na época, não havia qualquer indicação de que o Irã estivesse desenvolvendo armamento nuclear.

E dispara definitivo: "Assim, a ideia de que o Irã é uma ameaça nuclear no presente ou que conseguirá armas nucleares no próximo mês ou em dois meses é totalmente exagerada, e acho que esta avaliação é também compartilhada por todos os serviços de inteligência americanos e de outros países ocidentais".

ElBaradei defende a possibilidade de países emergente atuarem como negociadores. "Acho que a comunidade internacional tem muitos países responsáveis que devem tentar mediar conflitos em regiões diferentes do mundo. Precisamos levar em conta não apenas a abordagem das potências ocidentais, mas também de países do Hemisfério Sul como o Brasil e a África do Sul. Todos estes países que estão emergindo como potências econômicas devem também exercer o seu soft power e sua influência para assegurar que tenhamos um mundo equilibrado", avalia.

 

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