Senhor, concede-nos a paz, porque todas as nossas obras tu as fazes por nós.
Is 26:12
     
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Os Cristãos e a Riqueza PDF Imprimir E-mail
Escrito por Rev. Anacleto Rodrigues da Silva   

Neste mundo de tantas desigualdades, onde há, cada vez mais, um enorme interesse pelas riquezas materiais, o Evangelho de Mateus, capítulo 6, torna-se uma mensagem muito oportuna e atual.

Os textos da Campanha da Fraternidade Ecumênica-2010 trazem reflexões atualizadas sobre esse assunto, principalmente a respeito de Deus e o dinheiro.
O Evangelho é bastante claro: o homem deve escolher se serve a Deus ou ao dinheiro. Se optar por servir a Deus, deve colocar seu Reino em primeiro lugar. Essa escolha enseja a vivência do mais autêntico significado da aliança do coração humano com as riquezas.
Nossa reflexão baseia-se em Mateus 6Mateus 6
. 19-21, enfocando esse aspecto do amor às riquezas, visando fortalecer nossa consciência e prática da mordomia cristã, principalmente no que diz respeito, não só à atitude do crente, em particular, de colocar as riquezas a serviço do Reino, mas também ao compromisso financeiro que a Igreja assume em todas as suas atividades locais, regionais, nacionais e mundiais.

I - AS RIQUEZAS PARA DEUS

No Evangelho de Mateus, encontramos o ensino de Jesus que diz: "...ajuntem riquezas no céu, onde as traças e a ferrugem não podem destruí-las, e os ladrões não podem arrombar e roubá-las". ( Mt. 6.20).
Examinando este texto do Evangelho, levantamos as seguintes questões:

1ª) Por que Jesus fala de traça, ferrugem e ladrões?
Bem, recorrendo ao Antigo Testamento, vemos que os antigos tesouros orientais normalmente consistiam em prata e ouro e também em roupas caras. (Cf. Gn. 45.22; 2 Rs. 5.23).
A traça e a ferrugem estão associadas às roupas, e os ladrões à prata e ao ouro. Portanto, os tesouros materiais não são eternos.

2ª) Por que Jesus ensina para que se acumulem tesouros no céu?
Porque ele faz uma releitura das orientações rabínicas sobre a relação das riquezas com Deus. Existia a idéia de que a entrega de riquezas para Deus é revertida em recompensa no céu.
Jesus não nega a idéia de recompensa, de bênçãos, mas prioriza o enfoque a respeito das riquezas a serviço do Reino de Deus.
Os aspectos distintivos das riquezas a serviço do Reino não são a prata e o ouro, mas sim o amor e a justiça. Podemos falar de amor-de-justiça que implica em uma pessoa ou uma coletividade tornar-se próxima do outro, inclusive disponibilizando bens, renda, principalmente para aqueles que estão desprovidos do bem.
Essa releitura é ampla e profunda, atingindo até a prática do dízimo. Articulam-se dízimo e diaconia social. É preciso dar o dízimo e ao mesmo tempo socorrer o necessitado e lutar ao lado do injustiçado.
Jesus critica alguns tipos de fariseus que dedicam bens ao templo e se desobrigam de cuidar dos pais idosos e explorados. ( Mc. 7. 9-13).
O ato de colocar os bens a serviço do Reino une e fortalece as duas ações: contribuir no templo e dedicar-se à restauração de vidas humanas.
Em outros textos, esse ensino é reafirmado, ressaltando-se dedicação e compromisso com o Reino: dar o dízimo e ser justo com os outros. (Mt. 23.23 e 24); adorar a Deus e exercer a partilha (Mt. 19.16-22; Lc. 19. 1-10).
Vemos claramente que a justiça do Reino de Deus é uma exigência de amor entre os homens. Deve-se responder sempre com o bem. Essa justiça deve fazer parte de nossa maneira de viver na terra e na forma de proceder com os outros.

II - O AMOR E AS RIQUEZAS

Jesus estabelece uma relação do coração com as riquezas, quando diz: "...onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês" (Mt. 6.21).
Há um sentido fundamental nessa declaração. Trata-se do significado do amor. O homem ama as riquezas. No entanto, perguntamos: do ponto de vista de Jesus, quais tesouros devem ser valorizados? São as riquezas materiais ou os tesouros do Reino?
Jesus diz que as riquezas do Reino são essenciais. A fé, a vigilância, a liberdade, a esperança, o amor e a justiça fazem parte desse imenso tesouro.
No Reino, o dinheiro é importante. Porém, o amor e a justiça valem muito mais, e dão sentido saudável às riquezas materiais.
Essa interpretação torna-se mais clara, à medida que a comparamos com um relato sobre um crente chamado Teófilo que resolveu reorganizar sua vida sócio-econômica. Embora dispondo de emprego estável, bom salário, não procurava equilibrar receita e despesa. Qualquer situação nova de despesa era motivo para ir em busca de empréstimos nos estabelecimentos de crédito, junto aos parentes e amigos.
Com o acúmulo das dívidas, foi ficando difícil honrar os compromissos. Com o passar do tempo, passou a ter constrangimentos, principalmente quando os credores mais próximos começaram a questionar sua atitude, seu comportamento. Dizia que não dispunha de dinheiro para pagar as dívidas contraídas com os parentes e amigos, mas sempre tinha recursos para destinar às coisas afins ao seu gosto, ao seu desejo, que nem sempre correspondiam às necessidades básicas.
Ficou triste, irritou-se, discutiu, provocou desentendimentos, insatisfações, mas depois refletiu e começou a pensar, como cristão, sobre a aliança do seu sentimento com as riquezas. Descobriu que seu coração não estava tão unido à justiça, como sempre imaginou. Percebeu que não estava sendo tão amigo de Deus, como sempre pensou (Theos - Deus, filos - amigo). Como poderia caminhar ao lado do amor e da justiça, se nas situações de impasse, obtinha soluções para os problemas financeiros criando dificuldades para outros?
Resolveu mudar. Procurou os credores. Foi dialogando até zerar as dívidas. Em casa, a família reorganizou-se na parte sócio-econômica, dando prioridade às necessidades básicas e ao compromisso com a comunidade de fé. Tempos depois, passou a dedicar-se à diaconia social. Para sua alegria, começou a entender melhor a respeito da prioridade dos tesouros do Reino de Deus e sobre a verdadeira aliança do coração com as riquezas, relendo Mateus 6Mateus 6
. 21: "...onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês" (Mt. 6.21).

III - NOSSA RESPONSABILIDADE CRISTÃ

A essa autêntica vivência do amor vinculam-se a responsabilidade, o engajamento e o compromisso. Com a metáfora do arado, Jesus deixa claro: "...Quem começa a arar a terra e olha para trás não serve para o Reino de Deus". (Lc. 9.62). Nada deve impedir o homem de seguir a Jesus Cristo. Como o agricultor com a mão no arado, o cristão deve estar firme no trabalho, olhando para frente, mantendo-se na correta direção.
Outros textos mostram que esse engajamento não se refere apenas a responder por cargos, funções e tarefas assumidos, mas ao amor a Jesus Cristo, como exigência fundamental. ( Jo. 3. 3; Mt. 6. 33; Lc. 14. 26 e 27).
Essa vinculação se dá visivelmente no batismo, sinal e selo da união com o corpo de Cristo e da consagração do crente para a missão. Nessa vinculação, desenvolvem-se os deveres do povo de Deus no serviço cristão. Por meio dos Princípios de Fé e Ordem (PFO), a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil - IPU interpreta e estabelece não somente os deveres para os eclesianos, mas também os requisitos para os ministérios ordenados.
Sobre os eclesianos, as diretrizes dizem respeito tanto à vida, formação e testemunho cristãos, quanto à mordomia cristã. Sobre o compromisso do crente, quanto à situação sócio-econômica de sua comunidade de fé, assim está escrito nos PFO, artigo 26, alínea "c": "...Sustentar moral e financeiramente a igreja e suas instituições".
Em relação aos ministérios ordenados, os requisitos estão registrados nos artigos 6º e 7º. Os PFO estabelecem a seguinte exigência, no artigo 6º, parágrafo único, alínea "d": "Ser dizimista".
A experiência do dizimista é muito rica, não só no aspecto pessoal, pelas atitudes de alegria, gratidão e compromisso, mas também no aspecto comunitário, porque a comunidade local também é dizimista. Ela envia dízimos para o Presbitério e para a Igreja nacional.
Além da garantia de funcionamento dos projetos locais, regionais e nacionais, os nossos dízimos influem na missão mundial da Igreja. A IPU participa de uma ampla comunhão de Igrejas do mundo inteiro. Contribui para vários organismos cristãos internacionais.
A maioria de nós sabe que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), do qual a IPU é membro, há décadas, tem financiado projetos educacionais, e vem ajudando nas lutas de libertação política e social dos povos oprimidos, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
É muito importante que nossa concepção e prática do dízimo sejam vinculadas à experiência da comunidade de adoradores a Deus participantes na justiça. Que o dízimo seja expressão de nossa fé, de nossa união de corpo e alma ao Senhor Jesus Cristo, e reafirmação de nosso engajamento na missão.
Que nossa maneira de viver esteja coerente com as palavras e ações de Jesus Cristo, que está presente no mundo, restaurando vidas e fazendo novas todas as coisas. Ao mesmo tempo, convida homens e mulheres a colocarem nas riquezas do Reino de Deus, sua vida, seu coração.

 

 


BIBLIOGRAFIA


ARAÚJO, João Dias. Sê cristão hoje. Vitória, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

BRUCE F. F., Comentário Bíblico NVI. Antigo e Novo Testamento. São Paulo, Editora Vida, 2009.

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KRÜGER, René et alli. Vida plena para toda la creación. Iglesia, globalización neoliberal y justicia económica. Buenos Aires, La Alianza de Iglesias Presbiterianas y Reformadas de America Latina - AIPRAL / Instituto Universitário - ISEDET, 2006.

McKENZIE, John L. Dicionário bíblico. 8ª edição. São Paulo, PAULUS, 2003.

PEGORARO, Olinto A. Ética é justiça. Petrópolis, Vozes, 1997.

PIKAZA, Javier. A teologia de mateus. São Paulo, Edições Paulinas, 1984.

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